A   HISTORIA   TOTAL

                                            “Saber morrer o que viver não pôde”

 

Desafios são parte integrante de cada momento de vida. Incessantemente   somos desafiados. Se não encontrarmos motivação para a luta, perecemos. Mas será isto característico de alguma etapa em especial da vida?  A criança, inundada pelos desejos de conhecer o mundo, o adolescente envolto no desesperado desejo de desfrutar de sua sexualidade, o jovem buscando sua realização social e profissional. O homem maduro solidificando sua família e sua profissão. Todos enfrentam a impermanência do momento, a inesperada chegada de novas batalhas, sobretudo internas. E para o homem que envelhece, que possui mais coisas a serem desfrutadas que a serem conquistadas, de onde tirará motivação e esperança para vencer os desafios de permanecer vivo e, mais que isso, viver em estado de gozo, como soube (ou não) viver todos os anos anteriores de sua vida?

Pensemos nesta pessoa, já com mais de sessenta anos, talvez chegando aos oitenta e que, de repente “não mais que de repente”, sentiu todas as suas realizações como puras ilusões, e que todas as razões para suas lutas careciam de sentido. Que um maldoso raio de iluminação a fizesse tomar consciência de que vivera no mundo das sombras e não tivera coragem de sair para ver a luz da verdade à saída da caverna.

Vamos até supor, para facilitar nossa tarefa, que nada estava indo mal em sua vida. Continuava casada, educou os filhos, que por sua vez se casaram e lhe deram netos. Seguiu uma profissão honradamente, cumpriu seus deveres com tenacidade.

E de repente, “não mais que de repente”, ela percebe que nunca parara para dar sentido ao que fazia. Simplesmente ia fazendo. Suas atividades contínuas não lhe davam tempo para experimentar grandes tristezas ou alegrias, bastava-lhe a sensação de ter feito o que se esperava dela. Sem se aprofundar no fato de que ela  passara  sua vida nutrindo rancor por todas as falhas que ela encontrava  na sua educação, pela falta de carinho de seus pais porque em sua opinião certamente não gostavam dela.

Poderíamos mergulhar na obra de Clarice Lispector e “correr o risco” de descobrir que alguém pode passar toda sua vida sem saber o que está fazendo da mesma. Sem descobrir a essência do que a move, os valores que a energizam, os sentimentos que dão sentido à sua vida.

O sentido da busca da construção da história total é mudar o enredo que nutriu a mente desta pessoa amargurada e infeliz que nos procura e torna-la capaz de construir uma outra visão do valor daquilo que viveu,  atar laços amorosos que sempre foram rompidos antes de serem formados, fazê-la perceber que “o jeito de olhar as coisas muda o jeito que as coisas têm”.

Que o olhar de amargura e ódio pode se tornar um olhar de gratidão e reconhecimento se você estiver disposto a valorizar o que recebeu.

Certa vez, fui procurada por uma pessoa de origem simples mas cujos pais se empenharam em dar a ela a oportunidade de estudar no melhor colégio da cidade para ampliar suas chances de sucesso em sua vida. De fato, esta pessoa conquistou uma posição de liderança em uma empresa. Mas havia sempre uma atmosfera sombria em seu interior. Durante o trabalho de análise, recordou-se de que no colégio em ela estudara havia uma grande maioria de crianças abastadas e que exibiam toda sorte de estojos, canetas, tênis, muito lindos e muito caros e ela nada tinha destas coisas. Ela culpava os pais por serem pobres e a colocarem naquela situação dolorosa de sentir-se inferior. Nunca conseguiu ser carinhoso com eles. A partir do nosso trabalho, uma nova visão de sua história abriu-se e ela passou a enxergar que dentro dos valores de seus pais, a pessoa pode não ter apetrechos de luxo, mas o que importa é como ela se desenvolve como ser humano. E, infelizmente, os bons professores estavam somente nesta escola para  pessoas que podiam pagar o “luxo” de aprender a ter um olhar profundo sobre o mundo e sobre a importância do conhecimento.

Este paciente conseguiu fazer uma reviravolta em seu julgamento dos pais e uma recolocação no lugar dos valores essenciais, deixando o lixo para o lixo. Ele pôde, ao menos no fim de sua vida, sorrir com alegria diante daquilo que é realmente belo: a luta dos seus pais, mesmo sabendo do sofrimento que o filho iria passar, a humildade de viver buscando o essencial e não as aparências, a paciência diante do trabalho árduo de aprender.

O que estou tentando pensar com vocês é que não é apenas na velhice que precisamos adquirir capacidade para construirmos nossa história. Nossa história total está contida em cada momento em que somos capazes de viver como únicos e cheios de significado.

 Quando estava com 28 anos, fui com meu marido buscar um avião bimotor nos Estados Unidos. Uma viagem de duas semanas, a ida por uma linha aérea comercial, passando pelo Peru, Panamá, México e finalmente Houston. De lá outro voo doméstico a Fort Lauderdale onde nos aguardava o nosso copiloto e no dia seguinte iniciamos a viagem de volta por pequenas ilhas em meio ao mar, distantes umas das outras mais ou menos três horas, pequenas ilhas cercadas por um mar de esmeraldas, até chegarmos nas Guianas. Havia deixado meus três filhos pequenos, Carolina com apenas 8 meses, aos cuidados de meus pais. Não queria deixá-los, mas conhecer o mundo também enchia de sentido minha vida e eu me maravilhava a cada nascer ou pôr do sol no infinito verde do oceano, a cada silhueta de terra banhada por águas dos mais diferentes tons de azul. Porém, ao nos aproximarmos da Guiana Holandesa e de sua capital Paramaribo, uma tempestade formou-se em toda região, deixando-nos sem qualquer opção de retorno ao aeroporto anterior nem descer no de Paramaribo. Eu comprara um ursinho de pelúcia amarelo na Guiana Francesa para Carolina e eu o apertava nos braços pensando que talvez ela nunca o recebesse. O tempo passava. O motor do avião trabalhava em sua velocidade mínima sobre as ondas para esperar um possível distanciamento da tempestade que caía sobre o aeroporto de Paramaribo. A noite caia lentamente. A escuridão envolveu-nos. Nosso avião não podia viajar após o pôr-do-sol, ele não era autorizado para isso. A cada instante, meu coração enchia-se de maior pavor. Finalmente, uma voz vinda da torre do aeroporto pergunta ao piloto que estava conosco: “O senhor tem credenciais para fazer um pouso por instrumento?” Diante da resposta afirmativa, (o que não era verdade, o avião não estava equipado para voo a instrumento, mas deveríamos morrer por isso?) ele acendeu as luzes de uma única pista. Gostaria de poder descrever para vocês o que é uma visão de eternidade, de beleza, de toda plenitude possível. Era aquela pista pontilhada de pequenas luzes vermelhas no meio de uma imensidão negra de florestas e que abria as portas para a vida, formando um paralelo que conduzia ao infinito. Este foi um momento eterno e em que não havia a menor possibilidade de falta de sentido na minha existência. Eu vivia e queria viver. E rever meus filhos representava todo meu universo.

Quinodoz, de quem pretendo trazer muitas ideias, fala destes momentos como “segundos de eternidade”.  Momentos onde “o tempo cronológico parece ficar em suspenso, mas nos quais percebemos que existimos enquanto pessoas, que nossa existência tem uma duração limitada e que (mesmo assim) a vida adquire plena relevância”.

Ou podemos considerar que são momentos em que nossos valores são instantaneamente organizados segundo uma ordem perfeita de   prioridades.

Mas até aqui eu não me referi à história pessoal do paciente idoso que nos procura. Simplesmente quis apontar para o fato de que as coisas essenciais não se modificam com o passar do tempo. Os “segundos de eternidade” podem acontecer a qualquer momento de nossas vidas.

Mas o que haverá de específico no saber envelhecer? Creio que é a tomada de consciência de que construímos uma história através de escolhas, do uso que fizemos de cada momento que nos foi dado viver, de todos os desafios que enfrentamos ou dos quais fugimos, todos os momentos em que merecemos a vida ou nos acovardamos, destituindo-a de sentido.

Porque ninguém é corajoso sempre, ninguém faz as escolhas certas sempre. E vamos sempre pagar pelas consequências. Este é um caminho específico a ser percorrido através de uma análise na etapa final da vida. O caminho de fazermos um balanço dos acertos e erros e podermos aprender com este balanço de que nada é perdido. Que os erros também ensinam, que é preciso aprender a nos conhecermos como pessoas cheias de conflitos, de desejos. E que talvez o mais importante seja “fazer de todo erro um trampolim para um amor maior” (Guy de Larigoudie).

 Porque o maior sentido da vida está no desenvolvimento da capacidade de amar.

Bion insiste que a grande função de uma análise é o desenvolvimento da capacidade de pensar. E que só conseguimos pensar quando somos capazes de suportar a frustração (o não-seio) e ao invés de alucinarmos, introduzimos um esboço do conceito de falta, de ausência. O pensamento só pode existir na ausência da presença, substituindo o objeto desejado. No entanto, ele vai falar longamente sobre a sessão analítica como uma experiência emocional entre analista e analisando. Creio que Bion associa claramente o desenvolvimento da capacidade de pensar também com a capacidade de ter experiências emocionais criativas. E como não podemos fugir da dupla: Eros e Tânatos, a experiência que nos mobiliza a desenvolver capacidade de aprender é o impulso amoroso. É o ódio à frustração que nos leva às saídas alucinatórias, que são bolhas de sabão que intoxicam com suas mentiras e nada constroem.

Ora, Bion vai ainda condicionar a capacidade de integrar as lembranças  que carregamos de nossas experiências vividas  e, portanto, podermos construir nossa história, a sermos capazes de aprender com as experiências passadas. E, como traz Quinodoz, “para integrar experiências passadas, é necessário descobrir que é possível conservar interiormente, no mundo psíquico, o que perdemos na realidade de todos os dias. Em outras palavras: trata-se de guardar vivas interiormente, em nosso presente, todas as perdas que nosso envelhecimento acarreta.” ( p.2)

Creio ser importante refletirmos um pouco a respeito das múltiplas dimensões que podemos habitar mentalmente. Regiões que possuem características próprias, singulares, específicas. Regiões que quando decidimos entrar em uma delas somos tomados pela sua atmosfera e pelo seu poder. Há regiões onde habita o sublime, em outras o ridículo ou  o belo ou o odioso. Em um destes infinitos e insólitos lugares conseguimos mergulhar em uma vivência do passado ou em outro experimentamos a sensação de estarmos completamente absortos no presente. Cada um pode nos prover dos sentimentos mais mesquinhos até os sentimentos mais elevados

A cada momento precisamos escolher qual a região mental  que povoará nossa mente, enriquecendo-a ou  corrompendo-a.

Cito agora uma ilustração trazida por Quinodoz da capacidade de uma mulher perseguida por ser judia durante a segunda guerra mundial. Etty Hillesum viveu todas as atrocidades de um campo de concentração, mas tudo que ela sofreu e denunciou no seu Diário, não a impediam de admirar um pôr do sol, nem de perceber um movimento de bondade numa pessoa que encontrasse em seu caminho. Para ela, tratava-se de segundos de eternidade que lhe permitiam não sucumbir ao desespero e continuar a crer que a vida vale a pena. Não era uma negação da realidade, mas tratava-se de uma atitude criativa, que lhe permitia adentrar em uma nova dimensão, quando as saídas lhe pareciam bloqueadas.

Creio que um dos pensamentos mais interessantes que Quinodoz traz em seu artigo é que a vida se inscreve simultaneamente no tempo cronológico e fora desse tempo.

Há momentos na vida que parecem não passar nunca. Por exemplo, quando esperamos a chegada de alguém  importante para nós e ele se atrasa e não dá notícias. Cada minuto de espera parece tão longo! E, de forma contrária, quando estamos entre amigos, felizes, e a noite passa e não a vemos passar.  Quantos poetas não escreveram versos falando do quanto o tempo é ingrato, voando quando estão ao lado do ente amado e arrastando-se enquanto o esperam.

Ora, o sentimento de tristeza, de desmotivação arrastam o tempo, tornando-o pesado e lento. Se alguém que nos procura, pergunta como olhar a juventude sem inveja, como ver o sucesso que ele nunca alcançou   ser conquistado por um colega de sua idade sem experimentar um grande sentimento de derrota, como não olhar para o dia que se inicia sem desânimo e amargor, você precisa saber que está diante de alguém que reagiu desta maneira toda sua vida e isto impediu-o de usufrui-la.

Os jovens dominados pelo olhar de inveja e de pouco heroísmo, trazem o mesmo sentimento de que não são capazes de sentir coisas boas, ainda que aí as razões sejam diferentes. Não são bonitos ou inteligentes ou ricos como gostariam de ser, não têm pais que lhes deem atenção, como nosso idoso de hoje não tem filhos que lhes deem atenção. Enfim, a insatisfação muda de causalidade, ou de cenário, mas no fundo é uma contínua repetição de que precisariam ter mais para serem felizes.

Talvez se eu tivesse que escolher um tema sempre presente em minha escuta profissional seria esse: “eu precisaria ter mais para ser feliz”.

Ora, envelhecer, do pondo de vista de valores materiais (essencialmente juventude, fortuna, beleza, glória), representa um verdadeiro naufrágio, segundo a expressão do General De Gaulle. Daí a necessidade de optar pelos valores que não dependem de aquisições externas e formar uma hierarquia de valores que sejam alimentados por bens do espírito ou da mente. Pela qualidade do sentir, pela capacidade de vinculação com as pessoas, com a natureza, com a arte e, sobretudo, com nossa história. A valorização dos afetos, do olhar amoroso sobre todas as coisas, amor por tudo que lutamos e respeito por nossas falhas. Precisamos levar nossos pacientes a construírem suas histórias sem crítica, sem o olhar de indiferença que tudo empobrece. E, ao mesmo tempo, reconstruírem suas relações com as figuras importantes de suas vidas, substituindo as queixas por suas falhas por sentimentos de gratidão  pelo que efetivamente receberam. Porque se ele estão vivos ali com você é porque eles foram minimamente cuidados.

Quinodoz traz um conceito muito interessante que ela denomina a “nota azul”. A nota azul corresponde ao momento em que atingimos o melhor de nossa capacidade de amar.

Mas como “viver plenamente o presente”, se ele nos escapa o tempo todo, já que estamos em constante deslocamento do passado para o futuro? Quinodoz nos propõe desenvolver sensibilidade à dupla inscrição do tempo, o tempo cronológico e a eternidade, e conseguirmos nos inserir nesta dupla inscrição. Somente aí o presente pode adquirir todo seu valor.

“Não é uma simples cesura entre nosso passado e nosso futuro, é um contato com esse outro tempo que escapa à cronologia e alcança nosso íntimo. É todo o curso da vida que passa pela porta do instante presente para aí fazer viver o passado, dirigindo-se ao futuro, cada um deles dando sentido um ao outro.” (p.7)

Isto pode tornar a existência de cada ser humano uma bela aventura de coragem e competência mental para suportar a ignorância, em que a existência e seu desenrolar tão misterioso “prennent le dessus”, quer dizer, estejam acima de tudo que é transitório, para vivermos esta passagem como uma experiência de nada sabermos ao certo, exceto de que podemos aproveitar a beleza e o desafio da vida.

Cora Sophia Schroeder Chiapello

                                               Rua Antonio Millioti,180 – Ilha de Elba

                                               Condomínio Jardim Nova Aliança

                                               Ribeirão Preto-SP

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